sexta-feira, 22 de agosto de 2008

A Thing Happened


"31 graus, mas gelados no silêncio, anónimos. “São pessoas. Homens e mulheres, meninos, bebés, meu Deus, quer estar ao lado deles”. É Guillermina Garcia, 68 anos, cozinheira jubilada. “Venho aqui porque me dói, porque não sei o que fazer senão unir-me a outros que se sentem como eu”. Guillermina tem uma filha a viver nas Canárias. “Não dormi, toda a noite sentada na minha escuridão”.
Davam as mãos, Manuel e Ursulla, 67 anos cada um, caras brancas, cabisbaixas. “Não, não tínhamos lá família, mas todos somos a Humanidade, não somos?”. Somos a pergunta sem resposta." -
Jornal de Notícias (http://jn.sapo.pt/PaginaInicial/Mundo/Interior.aspx?content_id=982624 )

Um avião despenhou-se no aeroporto Barajas, em Madrid. Quase uma centena e meia de mortes. Pessoas que estavam a ir ou retornar na sua inocente alegria de início ou fim de férias. Famílias inteiras. Um pai, uma mãe, um irmão, um amigo... Novamente um acidente que podia ter sido evitado, e escrevo isso com dúvida nenhuma. A aeronave apresentava problemas. Há uma grande diferença entre viajarmos e sabermos do risco a que estamos expostos, ou pensarmos que não é nada, que é só um susto. Isso chama-se brincar com a vida das pessoas. Outros chamariam de assassinato. Destino uma ova!

Por mais que se encontre os culpados, pois sempre se encontra os culpados neste tipo de acidente, ninguém trará de volta aquelas 153 vidas perdidas. Ninguém trará de volta as 201 vidas perdidas em São Paulo no ano passado. A única diferença entre um acidente e outro é que um foi na decolagem e outro na aterragem. Fora isso, todos os mesmos indícios de perigo estavam ali bem visíveis para que alguém dissesse "esse avião não voa". Ninguém disse isso, ou se disseram, foram ignorados. E tentamos empurrar a nossa vida de volta à normalidade.

É difícil não ver proximidade. É difícil não somar 2 e 2 e chegar a conclusão que poderia ter sido comigo, ou com alguém conhecido. E não falo só por mim.

E coisa que mais odeio quando noticiam um acidente destes é que uma das primeiras coisas que a mídia diz é "Não se sabe ainda se havia passageiros portugueses no avião". E digo portugueses a título de exemplo. É como se pelo fato de haver uma pessoa do país em que se vive a tragédia será maior. Nunca poderá ser maior. A tragédia em si já é incomensurável! Como dizia a Ursulla nos seus 67 anos, somos todos humanidade, não somos?

Sim, Ursulla, felizmente e pelo menos, ainda somos.

Um comentário:

Céli disse...

Espero que pelo menos aí na Europa seja possível punir os responsáveis pelo acidente. Aqui no Brasil, as vidas dessas pessoas que morrem em desastres aéreos só servem para fazer política; ninguém se responsabiliza, o governo finge que não vê, as autoridades passam a bola uns para os outros, e por aí vai. É uma dor que não tem fim...